Na fé, não estamos sozinhos.

Não são os nossos esforços humanos nem o progresso técnico do nosso tempo que trazem a luz a este mundo. Experimentamos sempre de novo que o nosso esforço por uma ordem melhor e mais justa tem os seus limites. O sofrimento dos inocentes e, enfim, a morte de cada homem constituem uma escuridão impenetrável que pode talvez ser momentaneamente iluminada por novas experiências, como a noite o é por um relâmpago; mas, no fim, permanece uma escuridão acabrunhadora.

Ao nosso redor pode haver a escuridão e as trevas, e todavia vemos uma luz: uma chama pequena, minúscula, que é mais forte do que a escuridão, aparentemente tão poderosa e insuperável. Cristo, que ressuscitou dos mortos, brilha neste mundo, e fá-lo de modo mais claro precisamente onde tudo, segundo o juízo humano, parece lúgubre e sem esperança. Ele venceu a morte – Ele vive – e a fé n’Ele penetra, como uma pequena luz, tudo o que é escuro e ameaçador. Certamente quem acredita em Jesus não é que vê sempre só o sol na vida, como se fosse possível poupar-lhe sofrimentos e dificuldades, mas há sempre uma luz clara que lhe indica um caminho, o caminho que conduz à vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Os olhos de quem acredita em Cristo vislumbram, mesmo na noite mais escura, uma luz e vêem já o fulgor dum novo dia.

A luz não fica sozinha. Ao seu redor, acendem-se outras luzes. Sob os seus raios, delineiam-se de tal modo os contornos do ambiente que nos podemos orientar. Não vivemos sozinhos no mundo. Precisamente nas coisas importantes da vida, temos necessidade de outras pessoas. Assim, de modo particular na fé, não estamos sozinhos, somos anéis da grande corrente dos crentes. Ninguém chega a crer, senão for sustentado pela fé dos outros; mas, por outro lado, com a minha fé contribuo para confirmar os outros na sua fé. Ajudamo-nos mutuamente a ser exemplo uns para os outros, partilhamos com os outros o que é nosso, os nossos pensamentos, as nossas ações, a nossa estima. E ajudamo-nos mutuamente a orientar-nos, a identificar o nosso lugar na sociedade.

(Papa Bento XVI, na Vigília com os jovens em Freiburg, aos 24 de Setembro de 2011.)

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Nunca estamos sós.

Quando rezamos, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos um só. E quando nos dirigimos ao Pai no nosso ambiente interior, no silêncio e no recolhimento, nunca estamos sós. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grandiosa sinfonia que a comunidade cristã espalhada por todas as partes da terra e em todas as épocas eleva a Deus; sem dúvida, os músicos e os instrumentos são diferentes — e este é um elemento de riqueza — mas a melodia de louvor é uma só e está em harmonia. Então, cada vez que clamamos e dizemos: «Abbá! Pai!», é a Igreja, toda a comunhão dos homens em oração, que sustém a nossa invocação, e a nossa invocação é a invocação da Igreja.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 23 de maio de 2012.)

Silentium magnum in terra.

Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos […]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho […] “Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho […] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos“.

(Antiga homilia para Sábado Santo, citada no Catecismo da Igreja Católica, n. 635.)

O Profeta Isaías diz que no silêncio e na esperança reside nossa fortaleza (Is 30,15). Quando o Senhor silencia, e a noite e a solidão dominam nossa vida e inundam nosso coração, é que o Senhor nos vem visitar nas profundezas da nossa alma, ali onde apenas a luz da Fé alcança (e os joelhos da razão e dos sentidos se dobram). Ele vem e nos chama pelo nome como um pai chama por seu filho e o filho reconhece sua voz (Jo 10,3); Ele passa (Páscoa significa passagem, êxodo) para abrir as águas do mar intransponível que nos separam da nossa liberdade. Mas Ele não apenas vem e passa: Ele estabelece Sua morada em nós (Jo 14,23). Como? No silêncio da Fé, que nos faz esperar o que ainda não ouvimos, nem vimos com os nossos olhos, não contemplamos e nem as nossas mãos apalparam (1Jo 1,3), reside toda a nossa fortaleza, porque o Autor da Vida morto, reina vivo! “Mas é tão difícil crer sem ver”, dirá alguém. Quem crê apenas pelo que vê condena-se a uma fé do tamanho do próprio nariz, sim, porque é ele que porta os óculos quando os olhos falham. Mas quando o discípulo amado chegou ao sepulchro e o viu vazio, então ele passou a crer (Jo 20,8). Praestet fides supplementum sensuum defectui: “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. Ninguém nunca viu o Amor. E portanto, porque o Amor nos amou – quando ainda eramos pecado – Ele se deixou crucificar para nos libertar da pena imensa que pesa sobre os nossos ombros débeis.

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»