Circumfulsit nos lux de cælo (Act 9,3).

Agora tudo está repleto de luz,
os Céus, a terra e o inferno.
Que toda criatura festeje a Ressurreição de Cristo,
em quem está a nossa força

Cristo ressuscitou dos mortos e venceu a morte pela morte;
aos que estavam no túmulo, Cristo deu a vida!

Ontem eu estava sepultado contigo, ó Cristo,
hoje ressuscito contigo,
Tu que és o Ressuscitado.
Ontem eu estava crucificado com Cristo!
Glorifica-me contigo, em teu Reino, ó Salvador

Cristo ressuscitou dos mortos e venceu a morte pela morte;
aos que estavam no túmulo, Cristo deu a vida!

Jesus, tendo saído do túmulo como havia predito,
concedeu-nos a vida eterna e a sua grande misericórdia.

(Tropário da 3ª Ode do Cânon da Gloriosa Ressurreição do Santo Ofício Pascal,
segundo a Divina Liturgia de São João Crisóstomo.)

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Surge a mortuis!

Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados (1), nem para abolir o inferno da condenação (2), mas para libertar os justos que O tinham precedido (3).

«A Boa-Nova foi igualmente anunciada aos mortos…» (1 Pe 4, 6). A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude, do anúncio evangélico da salvação.

Cristo, portanto, desceu aos abismos da morte (4), para que «os mortos ouvissem a voz do Filho do Homem e os que a ouvissem, vivessem» (Jo 5, 25). Jesus, «o Príncipe da Vida» (5), «pela sua morte, reduziu à impotência aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo, e libertou quantos, por meio da morte, se encontravam sujeitos à servidão durante a vida inteira» (Heb 2, 14-15).

(1).  Cf. Concílio de Roma (ano 745), De descensu Christi ad inferos: DS 587.
(2). Cf. Bento XII, Libellus, Cum dudum (1341). 18: DS 1011; Clemente VI, Ep. Super quibusdam (ano 1351), c. 15, 13: DS 1077.
(3). Cf. IV Concílio de Toledo (ano 633). Capitulum, 1: DS 485; Mt 27, 52-53.
(4). Cf Mt 12, 40; Rm 10, 7; Ef 4, 9.
(5). Cf. Act 3, 15.

(Catecismo da Igreja Católica, ns. 633-635)

A miséria e o pecado da nossa vida é também um abismo; todo sofrimento e dor e angústia e tristeza, são também infernos em que jazemos – reduzidos à nossa impotência – e ansiamos pela vinda d’o Príncipe da Vida. Vinde, Senhor Jesus! (Ap 22,20).

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

Silentium magnum in terra.

Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos […]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho […] “Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho […] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos“.

(Antiga homilia para Sábado Santo, citada no Catecismo da Igreja Católica, n. 635.)

O Profeta Isaías diz que no silêncio e na esperança reside nossa fortaleza (Is 30,15). Quando o Senhor silencia, e a noite e a solidão dominam nossa vida e inundam nosso coração, é que o Senhor nos vem visitar nas profundezas da nossa alma, ali onde apenas a luz da Fé alcança (e os joelhos da razão e dos sentidos se dobram). Ele vem e nos chama pelo nome como um pai chama por seu filho e o filho reconhece sua voz (Jo 10,3); Ele passa (Páscoa significa passagem, êxodo) para abrir as águas do mar intransponível que nos separam da nossa liberdade. Mas Ele não apenas vem e passa: Ele estabelece Sua morada em nós (Jo 14,23). Como? No silêncio da Fé, que nos faz esperar o que ainda não ouvimos, nem vimos com os nossos olhos, não contemplamos e nem as nossas mãos apalparam (1Jo 1,3), reside toda a nossa fortaleza, porque o Autor da Vida morto, reina vivo! “Mas é tão difícil crer sem ver”, dirá alguém. Quem crê apenas pelo que vê condena-se a uma fé do tamanho do próprio nariz, sim, porque é ele que porta os óculos quando os olhos falham. Mas quando o discípulo amado chegou ao sepulchro e o viu vazio, então ele passou a crer (Jo 20,8). Praestet fides supplementum sensuum defectui: “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. Ninguém nunca viu o Amor. E portanto, porque o Amor nos amou – quando ainda eramos pecado – Ele se deixou crucificar para nos libertar da pena imensa que pesa sobre os nossos ombros débeis.

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

In finem dilexit eos (Jo 13,1).

Sexta-Feira Santa é o dia em que revivemos a paixão, crucifixão e morte de Jesus. Neste dia a liturgia da Igreja não prevê a celebração da Santa Missa, mas a assembléia cristã reúne-se para meditar o grande mistério do mal e do pecado que oprimem a humanidade, para repercorrer, à luz da Palavra de Deus e ajudada por comovedores gestos litúrgicos, os padecimentos do Senhor em expiação deste mal. Depois de ter ouvido a narração da paixão de Cristo, a comunidade reza por todas as necessidades da Igreja e do mundo, adora a Cruz e aproxima-se da Eucaristia, consumindo as espécies conservadas da Missa em Cena Domini do dia anterior. Como ulterior convite a meditar sobre a paixão e morte do Redentor e para expressar o amor e a participação dos fiéis nos sofrimentos de Cristo, a tradição cristã deu vida a várias manifestações de piedade popular, procissões e representações sagradas, que têm por finalidade imprimir cada vez mais profundamente no coração dos fiéis sentimentos de verdadeira participação no sacrifício redentor de Cristo. Entre elas sobressai a Via Crucis, prática piedosa que no decorrer dos anos se enriqueceu por numerosas expressões espirituais e artísticas relacionadas com a sensibilidade das diversas culturas. Surgiram assim em muitos países santuários com o nome de “Calvaria”, aos quais se chega através de uma íngreme subida que recorda o caminho doloroso da Paixão, permitindo que os fiéis participem na subida do Senhor ao Monte da Cruz, o Monte do Amor levado até ao fim.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 19 de março de 2008.)

O Amor é o Verbo; não um verbo, uma palavra, um discurso, uma desculpa, uma filosofia, uma ideologia, um sentimento. O Amor é uma Pessoa, que se deixou crucificar pela nossa morte para dar a Sua Vida a nós, que Ele amou desde o princípio.

Não hei de beber Eu o cálice que o Pai Me deu? (…) Tenho sede! (Jo 18, 11.28).

Estais lembrados de que lhe ofereceram vinho com mirra no momento de o crucificarem? Não o quis beber; e por quê? Porque essa bebida lhe teria entorpecido o espírito, e Ele havia decidido experimentar a dor em toda a plenitude. Isto revela, meus irmãos, o caráter dos seus sofrimentos: Jesus tê-los-ia voluntariamente evitado, se tal tivesse sido a vontade de seu Pai: Se é possível – dissera – afasta de mim este cálice (Mt 26, 39). Mas não sendo isso possível, perguntou serenamente ao Apóstolo que o queria subtrair ao suplício: Não hei de beber o cálice que o Pai me deu? Já que devia sofrer, entregava-se ao sofrimento, e não viera para sofrer o menos possível; não se desviou da dor, antes lhe fez frente: desafiou-a, se posso dizer, a fim de que ela deixasse cabalmente a sua marca nEle, em cada instante.

E assim como os homens, superiores aos animais, estão mais sujeitos à dor por causa do espírito que neles reside e que dá substância a essa dor, assim Nosso Senhor experimentou a dor no seu corpocom uma consciência – e portanto, com uma vivacidade, uma intensidade e uma unidade de percepção – que nenhum de nós pode sequer vislumbrar, de tal modo tinha Ele a alma plenamente em seu poder, completamente livre de qualquer distração, inteiramente ligada à dor, absolutamente entregue e submetida ao sofrimento. Pode-se assim dizer que o Senhor sofreu integralmente a sua Paixão, em todos os instantes.

O seu espírito jamais se afligiu, temeu, desejou ou se alegrou, sem que Ele tivesse antes querido afligir-se, temer, desejar ou alegrar-se. Quando sofremos, é porque os agentes exteriores e as emoções incoercíveis do nosso espírito nos forçam a tal. Sofremos involuntariamente a disciplina da dor; sofremo-la mais ou menos vivamente, segundo as circunstâncias; a nossa paciência é posta à prova em menor ou maior grau, e fazemos o possível para aliviar ou extinguir a dor. Somos incapazes de prever em que medida ela se abaterá sobre nós, nem por quanto tempo a poderemos suportar; quando passou, não sabemos dizer ao certo por que sofríamos, nem o que sofríamos, nem por que não suportamos melhor o nosso fardo.

Deu-se o contrário com Nosso Senhor. A sua divina pessoa não estava sujeita, não podia estar sujeita e exposta à influência das suas afeições e sentimentos, a não ser quando o quisesse. Repito que, quando Ele queria temer, temia; irritava-se quando queria irritar-se; afligia-se quando queria afligir-se. Não estava exposto à emoção, mas expunha-se voluntariamente à influência que o devia comover. Por isso, quando resolveu sofrer as dores da sua Paixão expiatória, fez tudo o que fez segundo a expressão do Sábio: instanter, com diligência; aplicando nisso todo o seu poder.

(Bem-aventurado Cardeal John Henry Newman c.o., no Discurso sobre Os sofrimentos morais de Nosso Senhor em Sua Paixão, de 1849. Tradução: Quadrante.)

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

Impropérios.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Porque Eu te tirei da terra do Egito,
preparaste uma Cruz para o Teu Salvador.

Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós.

Porque te conduzi quarenta anos pelo deserto,
te alimentei com maná e te introduzi em terra esplêndida, preparaste uma cruz para o Teu Salvador.

Deus Santo…

Que mais devia ter feito por ti, e não fiz? Eu te plantei como Minha vinha preciosíssima: e tu te fizeste amarga para Mim; vinagre Me deste a beber na Minha sede, e furaste com uma lança o lado de Teu Salvador.

Deus Santo…

Eu flagelei por ti o Egito e os seus primogênitos; e tu me entregaste flagelado.
Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu te tirei do Egito, afoguei o Faraó no Mar Vermelho; e tu me entregaste aos príncipes dos sacerdotes.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu abri o mar diante de ti; e tu me abriste o lado com uma lança.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu fui diante de ti numa coluna de nuvem; e tu me conduziste ao pretório de Pilatos.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu te tratei no deserto com maná; e tu golpeaste com pedras, e flagelaste.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu te dei de beber água doce da pedra; e tu me deste fel e vinagre a beber.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu golpeei por ti os reis cananeus; e tu golpeaste minha cabeça com uma cana.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu te dei um cetro real; e tu coroaste minha cabeça com espinhos.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Eu te exaltei em com todo poder; e tu me suspendeste no patíbulo da Cruz.

Ó meu povo, que Eu te fiz? Ou em que te contristei? Responde-Me!

Deus Santo…

Improperia.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Quia eduxi te de terra Aegypti:
parasti Crucem Salvatori tuo.

Ἅγιος ὁ Θεός, Sanctus Deus
Ἅγιος ἰσχυρός, Sanctus Fortis
Ἅγιος ἀθάνατος, ἐλέησον ἡμᾶς,
Sanctus Immortalis, miserere nobis.

Quia eduxi te per desertum quadraginta annis: et manna cibavi te, et introduxi te in terram satis bonam: parasti crucem Salvatori tuo.

Ἅγιος ὁ Θεός…

Quid ultra debui facere tibi, et non feci? Ego quidem plantavi te vineam meam speciosissimam: et tu facta es mihi nimis amara; aceto namque sitim meam potasti, et lancea perforasti latus Salvatori tuo.

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego propter te flagellavi Aegyptum cum primogenitis suis; et tu me flagellatum tradidisti.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego eduxi te de Aegypto, demerso Pharaone in mare rubrum; et tu me tradidìsti principibus Sacerdotum.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego ante te aperui mare, et tu aperuisti lancea latus meum.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego ante te praeivi in columna nubis: et tu me duxisti ad praetorium Pilati.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego te pavi manna per desertum; et tu me caecidisti alapis, et flagellis.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego te potavi aqua salutis de petra; et tu me potasti felle, et aceto.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego propter te Chananaeorum Reges percussi: et tu percussisti arundine caput meum.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego dedi tibi sceptrum regale; et tu dedisti capiti med spineam coronam.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…

Ego te exaltavi magna virtute; et tu me suspendisti in patibulo Crucis.

Popule meus, quid feci tibi? Aut in quo constristavi te? Responde mihi!

Ἅγιος ὁ Θεός…