Sui ipsius superbam exaltationem.

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a recta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana. Foi definido como «uma palavra, um acto ou um desejo contrários à Lei eterna» (1).

O pecado é uma ofensa a Deus: «Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 51, 6). O pecado é contrário ao amor que Deus nos tem e afasta d’Ele os nossos corações. É, como o primeiro pecado, uma desobediência, uma revolta contra Deus, pela vontade de os homens se tornarem «como deuses», conhecendo e determinando o que é bem e o que é mal (Gn 3, 5). Assim, o pecado é «o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus» (2). Por esta exaltação orgulhosa de si mesmo, o pecado é diametralmente oposto à obediência de Jesus, que realizou a salvação (3).

É precisamente na Paixão, em que a Misericórdia de Cristo vai vencê-lo, que o pecado manifesta melhor a sua violência e a sua multiplicidade: incredulidade, ódio assassino, rejeição e escárnio por parte dos chefes e do povo, cobardia de Pilatos e crueldade dos soldados, traição de Judas tão dura para Jesus, negação de Pedro e abandono dos discípulos. No entanto, mesmo na hora das trevas e do príncipe deste mundo (4), o sacrifício de Cristo torna-se secretamente a fonte de onde brotará, inesgotável, o perdão dos nossos pecados.

«Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada» (Mt 12, 31) (5). Não há limites para a Misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo (6). Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna.

(1). Santo Agostinho, Contra Faustum manichaeum, 22, 27: CSEL 25, 621 (PL 42, 418): cf. São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 1-2, q. 71, a. 6: Ed. Leon. 7, 8-9.
(2). Santo Agostinho, De civitate Dei, 14, 28: CSEL 40/2, 56 (PL 41, 436).
(3). Cf. Fl 2, 6-9.
(4). Cf. Jo 14, 30.
(5). Cf. Mc 3. 29; Lc 12, 10.
(6). Cf. João Paulo II, Enc. Dominum et vivificantem, 46: AAS 78 (1986) 864-865.

(Catecismo da Igreja Católica, ns. 1849-1851.1864)

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

Cum peccata nostra.

A Igreja, no magistério da sua fé e no testemunho dos seus santos, nunca esqueceu que «os pecadores é que foram os autores, e como que os instrumentos, de todos os sofrimentos que o divino Redentor suportou» (1). Partindo do princípio de que os nossos pecados atingem Cristo em pessoa (2), a Igreja não hesita em imputar aos cristãos a mais grave responsabilidade no suplício de Jesus, responsabilidade que eles muitas vezes imputaram unicamente aos judeus:

«Devemos ter como culpados deste horrível crime os que continuam a recair nos seus pecados. Porque foram os nossos crimes que fizeram nosso Senhor Jesus Cristo suportar o suplício da cruz, é evidente que aqueles que mergulham na desordem e no mal crucificam de novo em seu coração, tanto quanto deles depende, o Filho de Deus, pelos seus pecados, expondo-O à ignomínia. E temos de reconhecer: o nosso crime, neste caso, é maior que o dos judeus. Porque eles, como afirma o Apóstolo, «se tivessem conhecido a Sabedoria de Deus, não leriam crucificado o Senhor da glória» (1 Cor 2, 8); ao passo que nós, pelo contrário, fazemos profissão de O conhecer: e, quando O renegamos pelos nossos actos, de certo modo levantamos contra Ele as nossas mãos assassinas» (3).

«Não foram os demónios que O pregaram na cruz, mas tu com eles O crucificaste, e ainda agora O crucificas quando te deleitas nos vícios e pecados» (4).

(1). CatRom 1, 511. p. 64: Cf. Heb 12, 3.
(2). Cf. Mt 25, 45; Act 9, 4-5.
(3). CatRom 1, 5, 11, p. 64.
(4). São Francisco de Assis, Admonitia 5, 3: Opuscula Sancti Patris Francisci Assisiensis, ed. G. Esser (Grottaferrata 1978) p. 66. [Fontes Franciscanas I (Braga. Editorial Franciscana. 1994) p. 114].

(Catecismo da Igreja Católica, n. 598)

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

In manus peccatorum.

Terminada a oração, o Senhor levantou-se, e novamente encontrou os apóstolos dormindo. Despertou-os com uma aparente ironia: Dormi agora e repousai! (Mt 26, 45). Com isto queria dizer: “Ótimo lugar e ocasião para dormir; o inimigo está perto para me prender; dormi e descansai se podeis; solicitei que rezassem e vigiassem comigo, mas agora é tarde”. Como não se levantavam, gritou: Basta! Veio a hora! O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores (Mc 14, 41).

Ultrajado era o sentimento do Senhor, por aqueles que o prendiam, e maior ainda: por Judas; pois era um apóstolo, e o vendia por pouco valor. Judas não barganhou, conformou-se com o valor pago: Que quereis dar-me e vo-Lo entregarei (Mt 26, 15). Agora, o Senhor não ocultaria mais o desgosto pelo traidor: Levantai-vos e vamos! Aproxima-se o que me há-de entregar (Mc 14, 42); este não perdeu tempo e nem está dormindo.

(Padre Luis de la Palma s.j. (1560-1641), A Paixão do Senhor. São Paulo: Formatto Editora, 2005. p. 57.)

São minhas as mãos pelas quais Ele é entregue, e às quais Ele é entregue. Eu ultrajo Sua Alma. O horror do meu pecado O faz exclamar: Sou um verme, e não homem; sou o opróbrio dos homens e a abjeção da plebe. Com minhas mãos eu vou pregar Suas Santas e Veneráveis Mãos Inocentes no lenho da cruz. Seu Sangue cairá sobre mim.

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»