Risco do “fazer por fazer”.

Muitos baptizados, influenciados por numerosas propostas de pensamento e de costumes, são indiferentes aos valores do Evangelho e inclusivamente vêem-se obrigados a comportamentos contrários à visão cristã da vida, o que dificulta a pertença a uma comunidade eclesial. Mesmo confessando-se católicos, vivem de facto afastados da fé, abandonando as práticas religiosas e perdendo progressivamente a própria identidade de crentes, com consequências morais e espirituais de diversa índole. Este desafio pastoral estimulou-vos, queridos Irmãos, a procurar soluções não só para assinalar os erros que tais propostas contêm e defender os conteúdos da fé, mas sobretudo, para propor a riqueza transcendental do cristianismo como acontecimento que dá um verdadeiro sentido à vida e uma capacidade de diálogo, escuta e colaboração com todos.

Mas é muito importante que tudo o que com a ajuda de Deus nos propusermos, esteja profundamente radicado na contemplação e na oração. O nosso tempo é vivido em contínuo movimento, que muitas vezes chega à agitação, caindo-se facilmente no risco de “fazer por fazer”.

(Papa Bento XVI, Discurso aos Bispos do México, 15 de Setembro de 2005.)

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Ouvir Cristo é um caminho de Fé.

“Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O!” (Mc 9, 7).

Quando se tem a graça de fazer uma forte experiência de Deus, é como se se vivesse algo de análogo àquilo que aconteceu com os discípulos, durante a Transfiguração: por um momento, saboreia-se algo daquilo que constituirá a bem-aventurança do Paraíso. Em geral, trata-se de experiências breves, que por vezes Deus concede, de maneira especial em vista de árduas provações. Porém, a ninguém é dado viver “no Tabor” enquanto estiver nesta terra. Com efeito, a existência humana é um caminho de Fé e, como tal, progride mais na penumbra que na plena luz, não sem momentos de obscuridade e até de total escuridão. Enquanto estamos aqui em baixo, o nosso relacionamento com Deus realiza-se mais na escuta do que na visão; e a própria contemplação tem lugar, por assim dizer, de olhos fechados, graças à luz interior acesa em nós pela Palavra de Deus.

(Papa Bento XVI, Angelus do II Domingo de Quaresma, 12 de Março de 2006.)

“Como chegar a uma fé viva, a uma fé realmente católica, a uma fé concreta, vivaz, eficiente?”. A fé, em última análise, é um dom. Por conseguinte, a primeira condição é aceitar algum dom, não ser auto-suficiente, não fazer tudo sozinho, porque não podemos fazê-lo, mas devemos abrir-nos na certeza de que o Senhor doa realmente. Parece-me que este gesto de abertura é também o primeiro gesto da oração: abrir-se à presença do Senhor e ao seu dom. Este é também o primeiro passo para receber algo que nós não fazemos e que não podemos ter, se pretendemos fazê-lo sozinhos. Este gesto de abertura, de oração doai-me, Senhor, a fé! deve ser realizado com todo o nosso ser. Nós devemos entrar nesta disponibilidade de aceitar o dom e de nos deixarmos permear pelo dom no nosso pensamento, no nosso afeto, na nossa vontade.

(Papa Bento XVI, Encontro com o clero diocesano de Roma, 2 de março de 2006.)

Quem não dá Deus, dá demasiado pouco.

Também hoje o «olhar» compassivo de Cristo pousa incessantemente sobre os homens e os povos. Olha-os ciente de que o «projeto» divino prevê o seu chamamento à salvação. Jesus conhece as insídias que se levantam contra esse projeto, e tem compaixão das multidões: decide defendê-las dos lobos, mesmo à custa da sua própria vida. Com aquele olhar, Jesus abraça os indivíduos e as multidões e entrega-os todos ao Pai, oferecendo-Se a Si mesmo em sacrifício de expiação.

Iluminada por esta verdade pascal, a Igreja sabe que, para promover um desenvolvimento integral, é necessário que o nosso «olhar» sobre o homem seja idêntico ao de Cristo. De fato, não é possível de modo algum separar a resposta às necessidades materiais e sociais dos homens da satisfação das necessidades profundas do seu coração. (…) Por isso, a primeira contribuição que a Igreja oferece para o desenvolvimento do homem e dos povos não se consubstancia em meios materiais nem em soluções técnicas, mas no anúncio da verdade de Cristo que educa as consciências e ensina a autêntica dignidade da pessoa e do trabalho, promovendo a formação duma cultura que corresponda verdadeiramente a todas as exigências do homem.

(…) O jejum e a esmola, juntamente com a oração, que a Igreja propõe de modo especial no período da Quaresma, são uma ocasião propícia para nos conformarmos àquele «olhar». Os exemplos dos Santos e as múltiplas experiências missionárias que caracterizam a história da Igreja constituem indicações preciosas quanto ao melhor modo de apoiar o desenvolvimento. (…) Quem age segundo esta lógica evangélica, vive a fé como amizade com o Deus encarnado e, como Ele, provê às necessidades materiais e espirituais do próximo. Olha-o como mistério incomensurável, digno de infinito cuidado e atenção. Sabe que, quem não dá Deus, dá demasiado pouco; como dizia frequentemente a Beata Teresa de Calcutá, a primeira pobreza dos povos é não conhecer Cristo. Por isso, é preciso levar a encontrar Deus no rosto misericordioso de Cristo: sem esta perspectiva, uma civilização não é construída sobre bases sólidas.

(Papa Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2006, 29 de setembro de 2005.)

O Mistério da oração de Jesus (1): Incarnationis Mysterium.

Deus poderia ter salvo o mundo por um ato de Sua Omnipotência, do mesmo modo como Ele o criou do nada (ex nihilo), ou ainda, pela Sua mesma Omnipotência, há-de transformar o mundo quando Jesus vier ao seu encontro quando o tempo chegar ao seu fim, e operará a separação eterna e definitiva entre o bem e o mal. Mas Ele não quis salvar o mundo por meios próprios à Sua Omnipotência. Isso como que esmagaria o homem, submetendo-o ao peso infinito de Sua Grandeza. Não. Deus quis salvar o mundo pela humildade de uma oração. Ele quis salvar os homens por meios próprios aos homens, por uma oração que Jesus rezará como homem -, como Deus, Jesus não pode senão atender às orações. Quando, porém, Ele reza como homem, é um Deus quem reza. Aquele que nasceu no Natal, Ele é Deus, mas é como homem que Ele vem ao mundo. Aquele que sofre e morre na Sexta-Feira Santa, é como homem que Ele morre, mas Ele é Deus. É um Deus que ressuscita no dia da Páscoa, mas Ele ressuscita como homem, não como Deus. Eis todo mistério da Encarnação.

Como Jesus realmente fez-se homem e, portanto, tem a natureza humana, Ele pôde elevar aos Céus, desde sua natureza humana, uma súplica. Súplica humana, sim, mas que, em sendo feita por um “eu”, um “eu” que é aquele do Filho de Deus, tem um valor infinito, insondável.

(Cardeal Charles Journet (1891-1975), in “Entretiens sur la prière”, Ed. Parole et Silence, 2006, pág. 32-33. Grifos do autor. Tradução nossa.)

Orai sem cessar.

O teu desejo é a tua oração. Se o teu desejo for contínuo, contínua será também a tua oração. Não foi em vão que disse o Apóstolo: Orai sem cessar. Será preciso, então, estar continuamente de joelhos, prostrados, de mãos erguidas, para obedecer a este preceito: Orai sem cessar? Se é isto que entendemos por orar, julgo que não podemos orar sem cessar.

Existe, porém, outra oração interior e contínua, que é o desejo. Ainda que faças qualquer outra coisa, se desejas aquele repouso sabático em Deus, não interrompes a oração. Se não queres interromper a oração, não interrompas o desejo.

Se o teu desejo é contínuo, é contínua a tua voz. Calar-te-ás se deixares de amar. Quem é que se cala? Aqueles de quem foi dito: Pela abundância da iniquidade resfriará a caridade de muitos.

A frieza na caridade é a mudez do coração.

(Santo Agostinho, Comentários sobre os Salmos, In ps. 37, 13-14).

Como amar todos os dias?

Peço-vos que olheis dentro do vosso coração todos os dias, a fim de encontrar a fonte de todo o amor autêntico. Jesus está sempre ali, esperando tranquilamente que nos possamos unir a Ele e escutar a sua voz. No fundo do vosso coração chama-vos a passar algum tempo com Ele na oração. Todavia este tipo de oração, a verdadeira oração, requer disciplina: exige que encontremos um momento de silêncio todos os dias. Com frequência, significa esperar que o Senhor nos fale. Também entre as ocupações e o stress da nossa vida quotidiana temos necessidade de dar espaço ao silêncio, porque é no silêncio que encontramos Deus, e é no silêncio que descobrimos quem realmente somos. E assim, descobrimos a vocação particular que Deus nos confiou para a edificação da sua Igreja e a redenção do nosso mundo.

(Papa Bento XVI, na Saudação aos jovens na Catedral de Westminster,
aos 18 de setembro de 2010.)

Ora pro nobis.

No Cenáculo, na noite anterior à sua paixão, o Senhor rezou pelos discípulos reunidos ao seu redor, estendendo ao mesmo tempo o olhar para a comunidade dos discípulos de todos os séculos, para «aqueles que – disse – vão acreditar em Mim por meio da sua palavra» (Jo 17, 20). Na oração pelos discípulos de todos os tempos, Ele viu-nos também a nós e rezou por nós.

(Papa Bento XVI, na Homilía da Santa Missa Crismal de 2009.)