Misericordias Domini in aeternum cantabo.

A história da salvação, que culmina na encarnação de Jesus e tem o seu pleno cumprimento no mistério pascal, é uma revelação esplêndida da misericórdia de Deus. No Filho, torna-Se visível «o Pai das misericórdias» (2 Cor 1, 3), que, sempre fiel à sua paternidade, «é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado» (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 6). A misericórdia divina não consiste apenas na remissão dos nossos pecados, mas também no facto de Deus, nosso Pai, nos reconduzir – por vezes com sofrimento, aflição e temor da nossa parte – ao caminho da verdade e da luz, porque não quer que nos percamos (cf. Mt 18, 14; Jo 3, 16). Esta dupla manifestação da misericórdia divina mostra como Deus é fiel à aliança selada com cada cristão no Baptismo. Repassando a história pessoal de cada um e a da evangelização dos nossos países, podemos dizer com o salmista: «Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor» (Sal 89/88, 2).

(Papa Bento XVI, Discurso da visita à Catedral de Cotonou, no Benin,
aos 18 de Novembro de 2011.)

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Servo inútil, entra na Minha Glória.

Não são os que estão na luz que iluminam a luz, mas é esta que os ilumina e faz resplandecer; eles nada lhe dão, são eles que beneficiam da luz e por ela são iluminados.

Do mesmo modo, o serviço que prestamos a Deus nada acrescenta a Deus, porque Ele não precisa do serviço dos homens; mas àqueles que O servem e seguem, Deus dá a vida, a incorruptibilidade e a glória eterna; favorece com os seus dons aqueles que O servem, precisamente porque O seguem; mas nenhum benefício recebe deles, porque é perfeito e de nada carece.

Se Deus pede o serviço dos homens, é porque, na sua bondade e misericórdia, deseja conceder os Seus dons aos que perseveram no Seu serviço; de facto, Deus de nada precisa, mas o homem é que precisa da comunhão com Deus.

A glória do homem consiste em perseverar e permanecer no serviço de Deus. Por isso dizia o Senhor aos Seus discípulos: Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi, dando assim a entender que não eram eles que O glorificavam com o seu seguimento, mas que, por terem seguido o Filho de Deus, eram por Ele glorificados. E disse ainda: Quero que onde Eu estou, eles estejam também comigo, para que vejam a minha glória.

(Santo Irineu de Lyon, Contra as heresias IV, 13,4–14,1).

Apesar de pecadores…

São Bernardo diz numa bela homilia: «Por estas feridas [de Jesus], posso saborear o mel dos rochedos e o azeite da rocha duríssima, isto é, posso saborear e ver como o Senhor é bom (Dt 32,13; Sl 33,9).» É precisamente nas chagas de Jesus que vivemos seguros; nelas se manifesta o amor imenso do seu coração. Tomé compreendera-o. São Bernardo interroga-se: «Mas com que poderei contar? Com os meus méritos?» Todo «o meu mérito está na misericórdia do Senhor. Nunca serei pobre de méritos, enquanto Ele for rico de misericórdia: se são abundantes as misericórdias do Senhor, também são muitos os meus méritos». Importante é a coragem de me entregar à misericórdia de Jesus, de confiar na sua paciência, de me refugiar sempre nas feridas do seu amor. […] Talvez algum de nós possa pensar: o meu pecado é tão grande, que o meu afastamento de Deus é como o do filho mais novo da parábola, a minha incredulidade como a de Tomé; não tenho coragem para voltar, para pensar que Deus me possa acolher e esteja à espera precisamente de mim. […] Para Deus, nós não somos números; somos importantes – ou melhor, somos o que Ele tem de mais importante; apesar de pecadores, somos aquilo que Ele leva mais a peito.

(Papa Francisco, Sermão da Entronização do Santo Padre,
em São João de Latrão, aos 7 de abril de 2013.)

Kyrie eleison. Christe eleison. Kyrie eleison.

Este é o estilo de Deus: não é impaciente como nós, que muitas vezes queremos tudo e imediatamente, mesmo quando se trata de pessoas. Deus é paciente connosco, porque nos ama; e quem ama compreende, espera, dá confiança, não abandona, não corta as pontes, sabe perdoar. Recordemo-lo na nossa vida de cristãos: Deus sempre espera por nós, mesmo quando nos afastamos! Ele nunca está longe e, se voltarmos para Ele, está pronto a abraçar-nos.

(Papa Francisco, Homilía na Basílica de São João de Latrão, aos 7 de Abril de 2013.)

Sui ipsius superbam exaltationem.

O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a recta consciência. É uma falha contra o verdadeiro amor para com Deus e para com o próximo, por causa dum apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e atenta contra a solidariedade humana. Foi definido como «uma palavra, um acto ou um desejo contrários à Lei eterna» (1).

O pecado é uma ofensa a Deus: «Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos» (Sl 51, 6). O pecado é contrário ao amor que Deus nos tem e afasta d’Ele os nossos corações. É, como o primeiro pecado, uma desobediência, uma revolta contra Deus, pela vontade de os homens se tornarem «como deuses», conhecendo e determinando o que é bem e o que é mal (Gn 3, 5). Assim, o pecado é «o amor de si próprio levado até ao desprezo de Deus» (2). Por esta exaltação orgulhosa de si mesmo, o pecado é diametralmente oposto à obediência de Jesus, que realizou a salvação (3).

É precisamente na Paixão, em que a Misericórdia de Cristo vai vencê-lo, que o pecado manifesta melhor a sua violência e a sua multiplicidade: incredulidade, ódio assassino, rejeição e escárnio por parte dos chefes e do povo, cobardia de Pilatos e crueldade dos soldados, traição de Judas tão dura para Jesus, negação de Pedro e abandono dos discípulos. No entanto, mesmo na hora das trevas e do príncipe deste mundo (4), o sacrifício de Cristo torna-se secretamente a fonte de onde brotará, inesgotável, o perdão dos nossos pecados.

«Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada» (Mt 12, 31) (5). Não há limites para a Misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo (6). Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna.

(1). Santo Agostinho, Contra Faustum manichaeum, 22, 27: CSEL 25, 621 (PL 42, 418): cf. São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 1-2, q. 71, a. 6: Ed. Leon. 7, 8-9.
(2). Santo Agostinho, De civitate Dei, 14, 28: CSEL 40/2, 56 (PL 41, 436).
(3). Cf. Fl 2, 6-9.
(4). Cf. Jo 14, 30.
(5). Cf. Mc 3. 29; Lc 12, 10.
(6). Cf. João Paulo II, Enc. Dominum et vivificantem, 46: AAS 78 (1986) 864-865.

(Catecismo da Igreja Católica, ns. 1849-1851.1864)

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»