Noli timere!

Porventura não temos todos nós, de um modo ou de outro, medo, se deixarmos entrar Cristo totalmente em nós, se nos abrirmos completamente a Ele, medo de que Ele possa tirar-nos algo da nossa vida? Não temos porventura medo de renunciar a algo de grandioso, único, que torna a vida tão bela? Não arriscamos depois de nos encontrarmos na angústia e privados da liberdade? E mais uma vez o Papa (João Paulo II) queria dizer: Não! Quem faz entrar Cristo, nada perde, nada absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande. Não! Só nesta amizade se abrem de par em par, se escancaram as portas da vida. Só nesta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nesta amizade experimentamos o que é belo e o que liberta. Assim, eu gostaria com grande força e convicção, partindo da experiência de uma longa vida pessoal, de vos dizer hoje, queridos jovens: não tenhais medo de Cristo! Ele não tira nada, ele dá tudo. Quem se doa por Ele, recebe o cêntuplo. Sim, abri de par em par, escancarai as portas a Cristo e encontrareis a vida verdadeira. Amém.

(Papa Bento XVI, Sermão pelo Início do Ministério Petrino,
na Praça de São Pedro, aos 24 de abril de 2005.)

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No tempo que nos resta…

Tu, que me escutas, presta atenção às minhas palavras […] e assim, caminhando na diligência do teu espírito, chegarás à encruzilhada do teu coração. Uma vez aí chegado, […] deixa para trás o caminho do mal que é o da tua ignorância e considera que os dois caminhos que para ti se abrem são as duas formas de observar os preceitos do Senhor. Quanto a nós, que procuramos o caminho que leva a Deus, detenhamo-nos nesta encruzilhada do coração, examinemos esses dois caminhos, esses dois modos de compreensão que se nos oferecem, e consideremos por qual deles poderemos alcançar a Deus. Se seguirmos pelo da esquerda, uma vez que o caminho é largo, temos a temer que seja precisamente por aí o caminho da perdição; se voltarmos à direita, estaremos no bom caminho, porquanto esse é o caminho estreito, aquele que leva os servos assíduos à presença do Senhor. […] Atenta, por isso, no que escutas antes de deixares a luz deste mundo, porque só voltarás a tê-la na ressurreição. Aí chegado, se tiveres agido bem durante a tua vida terrena, estarás destinado à glória eterna com os santos do céu.

[Regra do Mestre (regra monástica do séc. VI), Prólogo, 1-14]

Preparações para a Fé (2).

Chamados à salvação pela fé em Jesus Cristo, «luz verdadeira que a todo o homem ilumina» (Jo 1, 9), os homens tornam-se «luz no Senhor» e «filhos da luz» (Ef 5, 8) e santificam-se pela «obediência à verdade» (1 Pd 1, 22).

Esta obediência nem sempre é fácil. Na sequência daquele misterioso pecado original, cometido por instigação de satanás, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), o homem é continuamente tentado a desviar o seu olhar do Deus vivo e verdadeiro para o dirigir aos ídolos (cf. 1 Ts 1, 9), trocando «a verdade de Deus pela mentira» (Rm 1, 25); então também a sua capacidade para conhecer a verdade fica ofuscada, e enfraquecida a sua vontade para se submeter a ela. E assim, abandonando-se ao relativismo e ao cepticismo (cf. Jo 18, 38), ele vai à procura de uma ilusória liberdade fora da própria verdade.

Mas nenhuma sombra de erro e de pecado pode eliminar totalmente do homem a luz de Deus Criador. Nas profundezas do seu coração, permanece sempre a nostalgia da verdade absoluta e a sede de chegar à plenitude do seu conhecimento. Prova-o, de modo eloquente, a incansável pesquisa do homem em todas as áreas e sectores. Demonstra-o ainda mais a sua busca do sentido da vida. O progresso da ciência e da técnica, esplêndido testemunho da capacidade da inteligência e da tenacidade dos homens, não dispensa a humanidade de perguntar-se sobre as questões religiosas mais essenciais, mas antes, estimula-a a enfrentar as lutas mais dolorosas e decisivas, que são as do coração e da consciência moral.

(Beato Papa João Paulo II, n.1 da Encíclica Veritatis Splendor, de 6 de agosto de 1993.)

Silentium magnum in terra.

Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos […]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho […] “Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho […] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos“.

(Antiga homilia para Sábado Santo, citada no Catecismo da Igreja Católica, n. 635.)

O Profeta Isaías diz que no silêncio e na esperança reside nossa fortaleza (Is 30,15). Quando o Senhor silencia, e a noite e a solidão dominam nossa vida e inundam nosso coração, é que o Senhor nos vem visitar nas profundezas da nossa alma, ali onde apenas a luz da Fé alcança (e os joelhos da razão e dos sentidos se dobram). Ele vem e nos chama pelo nome como um pai chama por seu filho e o filho reconhece sua voz (Jo 10,3); Ele passa (Páscoa significa passagem, êxodo) para abrir as águas do mar intransponível que nos separam da nossa liberdade. Mas Ele não apenas vem e passa: Ele estabelece Sua morada em nós (Jo 14,23). Como? No silêncio da Fé, que nos faz esperar o que ainda não ouvimos, nem vimos com os nossos olhos, não contemplamos e nem as nossas mãos apalparam (1Jo 1,3), reside toda a nossa fortaleza, porque o Autor da Vida morto, reina vivo! “Mas é tão difícil crer sem ver”, dirá alguém. Quem crê apenas pelo que vê condena-se a uma fé do tamanho do próprio nariz, sim, porque é ele que porta os óculos quando os olhos falham. Mas quando o discípulo amado chegou ao sepulchro e o viu vazio, então ele passou a crer (Jo 20,8). Praestet fides supplementum sensuum defectui: “Venha a fé, por suplemento, os sentidos completar”. Ninguém nunca viu o Amor. E portanto, porque o Amor nos amou – quando ainda eramos pecado – Ele se deixou crucificar para nos libertar da pena imensa que pesa sobre os nossos ombros débeis.

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

Pax, pax! Cum non esset pax. (Jer 8, 11)

(…) A grande tentação da nossa geração é a de se cansar da verdade, que temos a ventura de possuir. Muitos dos que compreendem a gravidade e a utilidade das mudanças verificadas no campo da ciência, da técnica e da vida social, perdem a confiança no pensamento especulativo, na tradição e no magistério da Igreja. Não confiam na doutrina católica, procuram libertar-se do seu carácter dogmático, já não querem aceitar definições que sejam válidas para todos e obriguem para sempre. Iludem-se, julgando encontrar outra liberdade, não apreciando já aquela de que gozam, alterando os termos da doutrina sancionada pela Igreja ou dando-lhe interpretações novas e arbitrárias, com alarde de erudição e, mais ainda, de intolerância psicológica. Sonham, talvez, arquitectar um novo tipo de Igreja que corresponda às suas intenções, às vezes nobres e elevadas, mas que já não é aquele tipo autêntico da Igreja que Jesus Cristo fundou e, na experiência histórica, desenvolveu e aperfeiçoou. Sucede, então, que a obediência diminui. Com ela, diminui também a liberdade, característica daquele que tem fé e opera na Igreja, com a Igreja e para a Igreja, e é substituída pela imperceptível submissão a outras obediências que se podem tornar pesadas e contrárias à verdadeira liberdade do filho da Igreja. Newman, o grande Newman, na conclusão da sua famosa Apologia pro vita sua, fala-nos da paz que encontrou quando se converteu à Igreja Católica. É um exemplo que devemos recordar.

(Papa Paulo VI, na Audiência Geral de 28 de Janeiro de 1970.)

A verdadeira liberdade.

(…) “Onde está o Espírito do Senhor existe liberdade”, dirá (o Apóstolo São Paulo) na segunda Carta aos Coríntios (cf. 3, 17). Todavia, como se vê com grande clareza nas Cartas de São Paulo, a liberdade cristã nunca se identifica com a libertinagem ou com o arbítrio de fazer aquilo que se quer: ela realiza-se na conformidade com Cristo e, por isso, no serviço autêntico aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados.

(…) Somente o diálogo sincero, aberto à verdade do Evangelho, pôde orientar o caminho da Igreja: “Porque o Reino de Deus não consiste em comer e beber, mas na justiça, paz e alegria do Espírito Santo” (Rm 14, 17). É uma lição que também temos de aprender: com os diferentes carismas confiados a Pedro e a Paulo, deixemo-nos todos guiar pelo Espírito, procurando viver na liberdade que encontra a sua orientação na fé em Cristo, concretizando-se no serviço aos irmãos. É essencial que estejamos sempre em conformidade com Cristo. É assim que nos tornamos realmente livres, assim se expressa em nós o núcleo mais profundo da Lei: o amor a Deus e ao próximo.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 1 de outubro de 2008.)