A “lógica” da Cruz (2).

O cristianismo não é uma doutrina filosófica, nem um programa de vida para sermos bem educados, para fazermos as pazes. O cristianismo é uma pessoa, uma pessoa elevada na cruz. Uma pessoa que se aniquilou a si mesma para nos salvar. E assim como no deserto foi erigido o pecado, aqui foi elevado Deus feito homem por nós. Por esta razão não se compreende o cristianismo sem entender esta humilhação profunda do filho de Deus que se humilhou a si mesmo tornando-se servo até à morte de cruz. Para servir.

Portanto, o coração da salvação de Deus é o seu filho que tomou sobre si todos os nossos pecados, as nossas soberbas, certezas, vaidades e os nossos desejos de nos tornarmos como Deus. O cristão que não sabe gloriar-se em Cristo crucificado, não compreendeu o que significa ser cristão. As nossas chagas, que o pecado deixa em nós, não podem ser curadas só com as chagas do Senhor, com as chagas de Deus feito homem, humilhado, aniquilado. Este é o mistério da cruz. Não é só uma ornamentação que devemos pôr nas igrejas, nos altares; não é apenas um símbolo que nos deve distinguir dos outros. A cruz é um mistério: o mistério do amor de Deus que se humilha, que se aniquila para nos salvar dos nossos pecados.

Onde está o teu pecado?… O teu pecado está ali na cruz. Vai procurá-lo ali nas chagas do Senhor, e o teu pecado será curado, as tuas chagas serão curadas, o teu pecado será perdoado. O perdão que Deus nos concede não significa liquidar uma conta que temos com Ele. O perdão que nos concede são as chagas do seu filho, elevado na cruz. E o seu desejo final é que o Senhor nos atraia e que nos deixemos curar.

(Papa Francisco, Homilia matutina da terça-feira, 8 de Abril de 2014.)

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A “lógica” da Cruz.

Onde está Cristo devem encontrar-se também os seus discípulos, que são chamados a segui-l’O, a ser solidários com Ele no momento do combate, para serem co-partícipes da sua vitória.

Em que consiste a nossa associação à sua missão, explica-o o próprio Senhor. Falando da sua próxima morte gloriosa, Ele usa uma imagem simples e ao mesmo tempo sugestiva:  “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12, 24). Compara-se a si mesmo com um “grão de trigo que se desfaz, para produzir muito fruto para todos”, segundo uma eficaz expressão de Santo Atanásio; e só mediante a morte, a cruz, Cristo produz muito fruto por todos os séculos. De facto, não era suficiente que o Filho de Deus tivesse encarnado. Para levar a cumprimento o plano divino da salvação universal, era preciso que Ele morresse e fosse sepultado:  só assim toda a realidade humana teria sido aceite e, mediante a sua morte e ressurreição ter-se-ia manifestado o triunfo da Vida, o triunfo do Amor; ter-se-ia demonstrado que o amor é mais forte do que a morte.

Contudo, o homem Jesus –  que era um verdadeiro homem, com os nossos mesmos sentimentos – sentia o peso da prova e a tristeza amarga pelo trágico fim que O aguardava. Precisamente sendo homem-Deus, experimentava ainda mais o terror face ao abismo do pecado humano e de quanto há de impuro na humanidade, que Ele devia levar consigo e consumir no fogo do seu amor. (…) Mas, do mesmo modo não falta a sua adesão filial ao desígnio divino, porque precisamente por isso sabe que chegou a sua hora, e reza com confiança:  “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12, 28). Com isso Ele quis dizer:  “Aceito a cruz” –  na qual se glorifica o nome de Deus, isto é, a grandeza do seu amor.

Queridos irmãos e irmãs, este é o caminho exigente da cruz que Jesus indica a todos os seus discípulos. Várias vezes disse:  “Se alguém quiser servir-me, siga-Me”. Não há alternativa para o cristão que quiser realizar a própria vocação. É a “lei” da Cruz descrita com a imagem do grão de trigo que morre para germinar a vida nova; é a “lógica” da Cruz recordada também no Evangelho de hoje. (…) Não existe outro caminho para experimentar a alegria e a verdadeira fecundidade do Amor:  o caminho do dar-se, do doar-se, do perder-se para se encontrar.

(Papa Bento XVI, Homilia no V Domingo de Quaresma, 29 de Março de 2009.)

O Amor é a Verdade da Cruz.

Houve um período que ainda não foi totalmente superado em que se rejeitava o cristianismo precisamente por causa da Cruz. A Cruz fala de sacrifício dizia-se a Cruz é sinal de negação da vida. Nós, contudo, desejamos a vida inteira sem limites e sem renúncias. Queremos viver, somente viver. Não nos deixamos condicionar por preceitos nem por proibições; nós desejamos a riqueza e a plenitude assim se dizia e ainda se diz. Tudo isto parece convincente e cativante; é a linguagem da serpente que nos diz: “Não vos amedronteis! Comei tranquilamente de todas as árvores do jardim!”. Porém, o Domingo de Ramos diz-nos que o verdadeiro grande “Sim” é precisamente a Cruz, que a Cruz é a verdadeira árvore da vida. Não encontramos a vida apoderando-nos dela, mas entregando-a. O amor é um doar-se a si mesmo, e por isso é o caminho da vida verdadeira, simbolizada pela Cruz.

(Papa Bento XVI, Sermão do Domingo de Ramos, 9 de abril de 2006.)