A “lógica” da Cruz.

Onde está Cristo devem encontrar-se também os seus discípulos, que são chamados a segui-l’O, a ser solidários com Ele no momento do combate, para serem co-partícipes da sua vitória.

Em que consiste a nossa associação à sua missão, explica-o o próprio Senhor. Falando da sua próxima morte gloriosa, Ele usa uma imagem simples e ao mesmo tempo sugestiva:  “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá ele só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12, 24). Compara-se a si mesmo com um “grão de trigo que se desfaz, para produzir muito fruto para todos”, segundo uma eficaz expressão de Santo Atanásio; e só mediante a morte, a cruz, Cristo produz muito fruto por todos os séculos. De facto, não era suficiente que o Filho de Deus tivesse encarnado. Para levar a cumprimento o plano divino da salvação universal, era preciso que Ele morresse e fosse sepultado:  só assim toda a realidade humana teria sido aceite e, mediante a sua morte e ressurreição ter-se-ia manifestado o triunfo da Vida, o triunfo do Amor; ter-se-ia demonstrado que o amor é mais forte do que a morte.

Contudo, o homem Jesus –  que era um verdadeiro homem, com os nossos mesmos sentimentos – sentia o peso da prova e a tristeza amarga pelo trágico fim que O aguardava. Precisamente sendo homem-Deus, experimentava ainda mais o terror face ao abismo do pecado humano e de quanto há de impuro na humanidade, que Ele devia levar consigo e consumir no fogo do seu amor. (…) Mas, do mesmo modo não falta a sua adesão filial ao desígnio divino, porque precisamente por isso sabe que chegou a sua hora, e reza com confiança:  “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12, 28). Com isso Ele quis dizer:  “Aceito a cruz” –  na qual se glorifica o nome de Deus, isto é, a grandeza do seu amor.

Queridos irmãos e irmãs, este é o caminho exigente da cruz que Jesus indica a todos os seus discípulos. Várias vezes disse:  “Se alguém quiser servir-me, siga-Me”. Não há alternativa para o cristão que quiser realizar a própria vocação. É a “lei” da Cruz descrita com a imagem do grão de trigo que morre para germinar a vida nova; é a “lógica” da Cruz recordada também no Evangelho de hoje. (…) Não existe outro caminho para experimentar a alegria e a verdadeira fecundidade do Amor:  o caminho do dar-se, do doar-se, do perder-se para se encontrar.

(Papa Bento XVI, Homilia no V Domingo de Quaresma, 29 de Março de 2009.)

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O Amor é a Verdade da Cruz.

Houve um período que ainda não foi totalmente superado em que se rejeitava o cristianismo precisamente por causa da Cruz. A Cruz fala de sacrifício dizia-se a Cruz é sinal de negação da vida. Nós, contudo, desejamos a vida inteira sem limites e sem renúncias. Queremos viver, somente viver. Não nos deixamos condicionar por preceitos nem por proibições; nós desejamos a riqueza e a plenitude assim se dizia e ainda se diz. Tudo isto parece convincente e cativante; é a linguagem da serpente que nos diz: “Não vos amedronteis! Comei tranquilamente de todas as árvores do jardim!”. Porém, o Domingo de Ramos diz-nos que o verdadeiro grande “Sim” é precisamente a Cruz, que a Cruz é a verdadeira árvore da vida. Não encontramos a vida apoderando-nos dela, mas entregando-a. O amor é um doar-se a si mesmo, e por isso é o caminho da vida verdadeira, simbolizada pela Cruz.

(Papa Bento XVI, Sermão do Domingo de Ramos, 9 de abril de 2006.)

A glória do homem é Deus.

Na crise atual que atinge não apenas a economia, mas vários setores da sociedade, a Encarnação do Filho de Deus nos fala de quanto o homem é importante para Deus e Deus para o homem. Sem Deus o homem acaba por deixar prevalecer o seu egoísmo sobre a solidariedade e sobre o amor, as coisas materiais sobre os valores, o ter sobre o ser. É preciso voltar para Deus para que o homem volte a ser homem. Com Deus mesmo nos momentos difíceis, de crise, o horizonte da esperança não desaparece: a Encarnação nos diz que jamais estamos sozinhos, Deus entrou em nossa humanidade e nos acompanha.

(Papa Bento XVI, Homilía de 4 de Outubro de 2012.)

O amor é a escada que guia para Deus.

Proponho-vos alguns aspectos da doutrina de São Gregório de Nissa (… que) manifesta uma concepção muito elevada da dignidade do homem. O fim do homem, diz o santo Bispo, é tornar-se semelhante a Deus, e este fim alcança-o sobretudo através do amor, do conhecimento e da prática das virtudes, (…) “inclinando-me” para o que é maior, para a verdade e o amor. Esta expressão icástica indica uma realidade profunda: a perfeição que desejamos encontrar não é uma coisa conquistada para sempre; perfeição é este permanecer a caminho, é uma contínua disponibilidade a ir em frente, porque nunca se alcança a semelhança plena com Deus; estamos sempre a caminho (cf. Homilia in Canticum 12: PG 44, 1025d). A história de cada alma é a de um amor sempre colmado, e ao mesmo tempo aberto a novos horizontes, porque Deus dilata continuamente as possibilidades da alma, para a tornar capaz de bens sempre maiores. O próprio Deus, que depôs em nós os germes de bem, e do qual parte qualquer inciativa de santidade, “modela o bloco… Limando e limpando o nosso espírito, forma em nós o Cristo” (In Psalmos 2, 11; PG 44, 544B).

Gregório preocupa-se por esclarecer: “De facto, não é obra nossa, nem sequer o êxito de um poder humano tornar-se semelhantes à Divindade, mas é o resultado da munificência de Deus, que desde a sua primeira origem ofereceu à nossa natureza a graça da semelhança com Ele” (De virginitate 12, 2: SC 119, 408-410). Portanto, para a alma “não se trata de conhecer algo de Deus, mas de ter em si Deus” (De beatitudinibus 6: PG 44, 1269c). De resto, observa perspicazmente Gregório, “a divindade é pureza, é libertação das paixões e eliminação de qualquer mal: se todas estas coisas estão em ti, Deus está realmente em ti” (De beatitudinibus 6: PG 44, 1272C).

(…) A fim de ascender para Deus, o homem deve purificar-se: “A vida, que conduz à natureza humana para o céu, mais não é do que o afastamento dos males deste mundo… Tornar-se semelhante a Deus significa tornar-se justo, santo e bom… Portanto, se segundo Eclesiastes (5, 1), “Deus está no céu” e se, segundo o profeta (Sl 72, 28), vós “aderis a Deus”, isso obriga-vos necessariamente a estar onde está Deus, porque estais unidos a Ele. Visto que Ele vos deu o mandamento de que, quando rezais, chameis Deus Pai, diz-vos que vos torneis sem dúvida semelhantes ao vosso Pai celeste, com uma vida digna de Deus, como o Senhor nos ordena mais claramente noutra parte, dizendo: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste!” (Mt 5, 48)” (De oratione dominica 2: PG 44, 1145ac).

(…) Portanto, se o homem é considerado digno do nome de Cristo, como se deve comportar? Gregório responde assim: “[Deve] examinar sempre no seu íntimo os próprios pensamentos, as próprias palavras e ações, para ver se estão orientadas para o Senhor ou se se afastam dele” (ibid.: PG 46, 284c). E este ponto é importante para o valor que dá à palavra cristão. Cristão é alguém que tem o nome de Cristo e portanto deve parecer-se com Ele também na vida.

E então o cristão examine-se, insiste ainda Gregório: “Mas para que te serve jejuar e fazer abstinência da carne, se depois com a tua malvadez agrides o teu irmão? Que vantagem tiras, perante Deus, do facto de não comeres do teu, se depois, agindo como injusto, arrancas das mãos dos pobres o que é seu?” (ibid.: PG 46,456a).

Para progredir no caminho rumo à perfeição e acolher Deus em si, levar em si o Espírito Santo, o amor de Deus, o homem deve dirigir-se a Ele com confiança na oração: “Através da oração conseguimos estar com Deus. Mas quem está com Deus está longe do inimigo. A oração é apoio e defesa da castidade, impedimento para a ira, apaziguamento e domínio da soberba. A oração é guarda da virgindade, proteção da fidelidade no matrimônio, esperança para quantos vigiam, abundância de frutos para os agricultores, segurança para os navegantes” (De oratione dominica 1: PG 44, 1124A-B). O cristão reza inspirando-se sempre na oração do Senhor: “Se queremos portanto rezar para que desça sobre nós o Reino de Deus, peçamos-lhe isto com o poder da Palavra: que eu seja afastado da corrupção, libertado da morte, libertado das correntes do erro; nunca reine a morte sobre mim, nunca tenha poder sobre nós a tirania do mal, nunca me domine o adversário nem me faça prisioneiro através do pecado, mas desça sobre mim o teu Reino, para que se afastem de mim ou, ainda melhor, se anulem as paixões que agora me dominam e comandam” (ibid., 3: PG 44, 1156d-1157a).

Este ensinamento de São Gregório permanece válido sempre: não só falar de Deus, mas levar Deus em si. Façamo-lo com o compromisso da oração e vivendo no espírito do amor por todos os nossos irmãos.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 5 de Setembro de 2007.)

Ut inimícos sanctæ Ecclésiæ humiliare dignéris. | Te rogámus, áudi nos.

A voz de Jesus passa pela nossa mente e vai ao coração. Os doutores respondem somente com a cabeça. Não sabem que a Palavra de Deus fala ao coração, como a Maria, que acolheu com humildade as palavras do Senhor.
A Palavra de Jesus vai ao coração porque é a Palavra de amor, é palavra bela e traz o amor, e nos faz amar.
Quando entra a ideologia na Igreja, quando entra a ideologia na inteligência do Evangelho, não se entende mais nada. Os ideólogos falsificam o Evangelho. Toda interpretação ideológica, de onde quer que ela venha, é uma falsificação do Evangelho. E esses ideólogos – como vimos na história da Igreja – acabam por se tornar intelectuais sem talento, moralistas sem bondade. Nem falemos de beleza, porque disso eles não entendem nada.
A estrada do amor, a estrada do Evangelho é simples: é a estrada que os Santos entenderam: Os santos é que levam a Igreja adiante! A estrada da conversão, da humildade, do amor, do coração, da beleza… Peçamos hoje ao Senhor pela Igreja: que o Senhor a liberte de qualquer interpretação ideológica e abra o coração da Igreja, da nossa Mãe Igreja, ao Evangelho simples, àquele Evangelho puro que nos fala de amor, que traz o amor e é tão bonito! E que nos torna mais belos, com a beleza da santidade. Rezemos hoje pela Igreja!

(Papa Francisco, na Homilia da Santa Missa de 19 de Abril de 2013.)

In finem dilexit eos (Jo 13,1).

Sexta-Feira Santa é o dia em que revivemos a paixão, crucifixão e morte de Jesus. Neste dia a liturgia da Igreja não prevê a celebração da Santa Missa, mas a assembléia cristã reúne-se para meditar o grande mistério do mal e do pecado que oprimem a humanidade, para repercorrer, à luz da Palavra de Deus e ajudada por comovedores gestos litúrgicos, os padecimentos do Senhor em expiação deste mal. Depois de ter ouvido a narração da paixão de Cristo, a comunidade reza por todas as necessidades da Igreja e do mundo, adora a Cruz e aproxima-se da Eucaristia, consumindo as espécies conservadas da Missa em Cena Domini do dia anterior. Como ulterior convite a meditar sobre a paixão e morte do Redentor e para expressar o amor e a participação dos fiéis nos sofrimentos de Cristo, a tradição cristã deu vida a várias manifestações de piedade popular, procissões e representações sagradas, que têm por finalidade imprimir cada vez mais profundamente no coração dos fiéis sentimentos de verdadeira participação no sacrifício redentor de Cristo. Entre elas sobressai a Via Crucis, prática piedosa que no decorrer dos anos se enriqueceu por numerosas expressões espirituais e artísticas relacionadas com a sensibilidade das diversas culturas. Surgiram assim em muitos países santuários com o nome de “Calvaria”, aos quais se chega através de uma íngreme subida que recorda o caminho doloroso da Paixão, permitindo que os fiéis participem na subida do Senhor ao Monte da Cruz, o Monte do Amor levado até ao fim.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 19 de março de 2008.)

O Amor é o Verbo; não um verbo, uma palavra, um discurso, uma desculpa, uma filosofia, uma ideologia, um sentimento. O Amor é uma Pessoa, que se deixou crucificar pela nossa morte para dar a Sua Vida a nós, que Ele amou desde o princípio.