Ouvir Cristo é um caminho de Fé.

“Este é o meu Filho muito amado. Escutai-O!” (Mc 9, 7).

Quando se tem a graça de fazer uma forte experiência de Deus, é como se se vivesse algo de análogo àquilo que aconteceu com os discípulos, durante a Transfiguração: por um momento, saboreia-se algo daquilo que constituirá a bem-aventurança do Paraíso. Em geral, trata-se de experiências breves, que por vezes Deus concede, de maneira especial em vista de árduas provações. Porém, a ninguém é dado viver “no Tabor” enquanto estiver nesta terra. Com efeito, a existência humana é um caminho de Fé e, como tal, progride mais na penumbra que na plena luz, não sem momentos de obscuridade e até de total escuridão. Enquanto estamos aqui em baixo, o nosso relacionamento com Deus realiza-se mais na escuta do que na visão; e a própria contemplação tem lugar, por assim dizer, de olhos fechados, graças à luz interior acesa em nós pela Palavra de Deus.

(Papa Bento XVI, Angelus do II Domingo de Quaresma, 12 de Março de 2006.)

“Como chegar a uma fé viva, a uma fé realmente católica, a uma fé concreta, vivaz, eficiente?”. A fé, em última análise, é um dom. Por conseguinte, a primeira condição é aceitar algum dom, não ser auto-suficiente, não fazer tudo sozinho, porque não podemos fazê-lo, mas devemos abrir-nos na certeza de que o Senhor doa realmente. Parece-me que este gesto de abertura é também o primeiro gesto da oração: abrir-se à presença do Senhor e ao seu dom. Este é também o primeiro passo para receber algo que nós não fazemos e que não podemos ter, se pretendemos fazê-lo sozinhos. Este gesto de abertura, de oração doai-me, Senhor, a fé! deve ser realizado com todo o nosso ser. Nós devemos entrar nesta disponibilidade de aceitar o dom e de nos deixarmos permear pelo dom no nosso pensamento, no nosso afeto, na nossa vontade.

(Papa Bento XVI, Encontro com o clero diocesano de Roma, 2 de março de 2006.)

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Quem não dá Deus, dá demasiado pouco.

Também hoje o «olhar» compassivo de Cristo pousa incessantemente sobre os homens e os povos. Olha-os ciente de que o «projeto» divino prevê o seu chamamento à salvação. Jesus conhece as insídias que se levantam contra esse projeto, e tem compaixão das multidões: decide defendê-las dos lobos, mesmo à custa da sua própria vida. Com aquele olhar, Jesus abraça os indivíduos e as multidões e entrega-os todos ao Pai, oferecendo-Se a Si mesmo em sacrifício de expiação.

Iluminada por esta verdade pascal, a Igreja sabe que, para promover um desenvolvimento integral, é necessário que o nosso «olhar» sobre o homem seja idêntico ao de Cristo. De fato, não é possível de modo algum separar a resposta às necessidades materiais e sociais dos homens da satisfação das necessidades profundas do seu coração. (…) Por isso, a primeira contribuição que a Igreja oferece para o desenvolvimento do homem e dos povos não se consubstancia em meios materiais nem em soluções técnicas, mas no anúncio da verdade de Cristo que educa as consciências e ensina a autêntica dignidade da pessoa e do trabalho, promovendo a formação duma cultura que corresponda verdadeiramente a todas as exigências do homem.

(…) O jejum e a esmola, juntamente com a oração, que a Igreja propõe de modo especial no período da Quaresma, são uma ocasião propícia para nos conformarmos àquele «olhar». Os exemplos dos Santos e as múltiplas experiências missionárias que caracterizam a história da Igreja constituem indicações preciosas quanto ao melhor modo de apoiar o desenvolvimento. (…) Quem age segundo esta lógica evangélica, vive a fé como amizade com o Deus encarnado e, como Ele, provê às necessidades materiais e espirituais do próximo. Olha-o como mistério incomensurável, digno de infinito cuidado e atenção. Sabe que, quem não dá Deus, dá demasiado pouco; como dizia frequentemente a Beata Teresa de Calcutá, a primeira pobreza dos povos é não conhecer Cristo. Por isso, é preciso levar a encontrar Deus no rosto misericordioso de Cristo: sem esta perspectiva, uma civilização não é construída sobre bases sólidas.

(Papa Bento XVI, Mensagem para a Quaresma de 2006, 29 de setembro de 2005.)

O Mistério da oração de Jesus (2): Sentire cum Christo.

Tentemos lançar um olhar sobre o interior de Jesus. Ele é Deus, aquele que reza é Deus, “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Quando o apóstolo Filipe pede: “Senhor, mostra-nos o Pai”, Jesus responderá: “Filipe, como, depois de todo esse tempo que estou com vocês, você me ainda diz: Mostra-nos o Pai! Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Ele é o Filho Eterno, o Filho Único gerado Pai antes de todos os séculos (CIC 242), Deus como o Pai. A divindade do Pai é divindade de Deus que se dá, que se doa; a divindade do Filho é divindade de Deus que a recebe. O Pai não nada de particular que O distinga do Filho, senão o fato de comunicar todo Seu Ser, toda Sua divindade, ao Filho, que não tem nada de particular que O distinga do Pai, senão o fato de receber toda essa mesma divindade. Paternidade e filiação são nomes de relações, não nomes de essências. A mesma essência, a mesma natureza, a mesma substância é comum a um como doador, e ao outro como receptor.

(Cardeal Charles Journet (1891-1975), in “Entretiens sur la prière”, Ed. Parole et Silence, 2006, pág. 33-34. Grifos do autor. Tradução nossa.)

O Mistério da oração de Jesus (1): Incarnationis Mysterium.

Deus poderia ter salvo o mundo por um ato de Sua Omnipotência, do mesmo modo como Ele o criou do nada (ex nihilo), ou ainda, pela Sua mesma Omnipotência, há-de transformar o mundo quando Jesus vier ao seu encontro quando o tempo chegar ao seu fim, e operará a separação eterna e definitiva entre o bem e o mal. Mas Ele não quis salvar o mundo por meios próprios à Sua Omnipotência. Isso como que esmagaria o homem, submetendo-o ao peso infinito de Sua Grandeza. Não. Deus quis salvar o mundo pela humildade de uma oração. Ele quis salvar os homens por meios próprios aos homens, por uma oração que Jesus rezará como homem -, como Deus, Jesus não pode senão atender às orações. Quando, porém, Ele reza como homem, é um Deus quem reza. Aquele que nasceu no Natal, Ele é Deus, mas é como homem que Ele vem ao mundo. Aquele que sofre e morre na Sexta-Feira Santa, é como homem que Ele morre, mas Ele é Deus. É um Deus que ressuscita no dia da Páscoa, mas Ele ressuscita como homem, não como Deus. Eis todo mistério da Encarnação.

Como Jesus realmente fez-se homem e, portanto, tem a natureza humana, Ele pôde elevar aos Céus, desde sua natureza humana, uma súplica. Súplica humana, sim, mas que, em sendo feita por um “eu”, um “eu” que é aquele do Filho de Deus, tem um valor infinito, insondável.

(Cardeal Charles Journet (1891-1975), in “Entretiens sur la prière”, Ed. Parole et Silence, 2006, pág. 32-33. Grifos do autor. Tradução nossa.)

Misericordias Domini in aeternum cantabo.

A história da salvação, que culmina na encarnação de Jesus e tem o seu pleno cumprimento no mistério pascal, é uma revelação esplêndida da misericórdia de Deus. No Filho, torna-Se visível «o Pai das misericórdias» (2 Cor 1, 3), que, sempre fiel à sua paternidade, «é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre toda a miséria moral, sobre o pecado» (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 6). A misericórdia divina não consiste apenas na remissão dos nossos pecados, mas também no facto de Deus, nosso Pai, nos reconduzir – por vezes com sofrimento, aflição e temor da nossa parte – ao caminho da verdade e da luz, porque não quer que nos percamos (cf. Mt 18, 14; Jo 3, 16). Esta dupla manifestação da misericórdia divina mostra como Deus é fiel à aliança selada com cada cristão no Baptismo. Repassando a história pessoal de cada um e a da evangelização dos nossos países, podemos dizer com o salmista: «Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor» (Sal 89/88, 2).

(Papa Bento XVI, Discurso da visita à Catedral de Cotonou, no Benin,
aos 18 de Novembro de 2011.)

O Amor é a Verdade da Cruz.

Houve um período que ainda não foi totalmente superado em que se rejeitava o cristianismo precisamente por causa da Cruz. A Cruz fala de sacrifício dizia-se a Cruz é sinal de negação da vida. Nós, contudo, desejamos a vida inteira sem limites e sem renúncias. Queremos viver, somente viver. Não nos deixamos condicionar por preceitos nem por proibições; nós desejamos a riqueza e a plenitude assim se dizia e ainda se diz. Tudo isto parece convincente e cativante; é a linguagem da serpente que nos diz: “Não vos amedronteis! Comei tranquilamente de todas as árvores do jardim!”. Porém, o Domingo de Ramos diz-nos que o verdadeiro grande “Sim” é precisamente a Cruz, que a Cruz é a verdadeira árvore da vida. Não encontramos a vida apoderando-nos dela, mas entregando-a. O amor é um doar-se a si mesmo, e por isso é o caminho da vida verdadeira, simbolizada pela Cruz.

(Papa Bento XVI, Sermão do Domingo de Ramos, 9 de abril de 2006.)