O Mistério da oração de Jesus (2): Sentire cum Christo.

Tentemos lançar um olhar sobre o interior de Jesus. Ele é Deus, aquele que reza é Deus, “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Quando o apóstolo Filipe pede: “Senhor, mostra-nos o Pai”, Jesus responderá: “Filipe, como, depois de todo esse tempo que estou com vocês, você me ainda diz: Mostra-nos o Pai! Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Ele é o Filho Eterno, o Filho Único gerado Pai antes de todos os séculos (CIC 242), Deus como o Pai. A divindade do Pai é divindade de Deus que se dá, que se doa; a divindade do Filho é divindade de Deus que a recebe. O Pai não nada de particular que O distinga do Filho, senão o fato de comunicar todo Seu Ser, toda Sua divindade, ao Filho, que não tem nada de particular que O distinga do Pai, senão o fato de receber toda essa mesma divindade. Paternidade e filiação são nomes de relações, não nomes de essências. A mesma essência, a mesma natureza, a mesma substância é comum a um como doador, e ao outro como receptor.

(Cardeal Charles Journet (1891-1975), in “Entretiens sur la prière”, Ed. Parole et Silence, 2006, pág. 33-34. Grifos do autor. Tradução nossa.)

O Mistério da oração de Jesus (1): Incarnationis Mysterium.

Deus poderia ter salvo o mundo por um ato de Sua Omnipotência, do mesmo modo como Ele o criou do nada (ex nihilo), ou ainda, pela Sua mesma Omnipotência, há-de transformar o mundo quando Jesus vier ao seu encontro quando o tempo chegar ao seu fim, e operará a separação eterna e definitiva entre o bem e o mal. Mas Ele não quis salvar o mundo por meios próprios à Sua Omnipotência. Isso como que esmagaria o homem, submetendo-o ao peso infinito de Sua Grandeza. Não. Deus quis salvar o mundo pela humildade de uma oração. Ele quis salvar os homens por meios próprios aos homens, por uma oração que Jesus rezará como homem -, como Deus, Jesus não pode senão atender às orações. Quando, porém, Ele reza como homem, é um Deus quem reza. Aquele que nasceu no Natal, Ele é Deus, mas é como homem que Ele vem ao mundo. Aquele que sofre e morre na Sexta-Feira Santa, é como homem que Ele morre, mas Ele é Deus. É um Deus que ressuscita no dia da Páscoa, mas Ele ressuscita como homem, não como Deus. Eis todo mistério da Encarnação.

Como Jesus realmente fez-se homem e, portanto, tem a natureza humana, Ele pôde elevar aos Céus, desde sua natureza humana, uma súplica. Súplica humana, sim, mas que, em sendo feita por um “eu”, um “eu” que é aquele do Filho de Deus, tem um valor infinito, insondável.

(Cardeal Charles Journet (1891-1975), in “Entretiens sur la prière”, Ed. Parole et Silence, 2006, pág. 32-33. Grifos do autor. Tradução nossa.)