Nunca estamos sós.

Quando rezamos, abre-se o nosso coração, entramos em comunhão não só com Deus, mas precisamente com todos os filhos de Deus, porque somos um só. E quando nos dirigimos ao Pai no nosso ambiente interior, no silêncio e no recolhimento, nunca estamos sós. Quem fala com Deus não está sozinho. Estamos na grande oração da Igreja, fazemos parte de uma grandiosa sinfonia que a comunidade cristã espalhada por todas as partes da terra e em todas as épocas eleva a Deus; sem dúvida, os músicos e os instrumentos são diferentes — e este é um elemento de riqueza — mas a melodia de louvor é uma só e está em harmonia. Então, cada vez que clamamos e dizemos: «Abbá! Pai!», é a Igreja, toda a comunhão dos homens em oração, que sustém a nossa invocação, e a nossa invocação é a invocação da Igreja.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 23 de maio de 2012.)

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Unítam sibi fragilitátis nostrae substántiam.

(…) Os discípulos, quando viram o Mestre erguer-se da terra e elevar-se para o alto, não foram tomados pelo desânimo, como se poderia pensar, aliás, tiveram uma grande alegria e sentiram-se estimulados a proclamar a vitória de Cristo sobre a morte (cf. Mc 16, 20). E o Senhor ressuscitado agia neles, distribuindo a cada um um carisma próprio. Escreve ainda São Paulo: «Concedeu dons aos homens… A uns, Ele constituiu Apóstolos, a outros, Profetas, a outros, Evangelistas, Pastores… para a edificação do Corpo de Cristo… até que cheguemos… à medida da estatura completa de Cristo» (Ef 4, 8.11-13).

Queridos amigos, a Ascensão diz-nos que em Cristo a nossa humanidade é levada à altura de Deus; assim, todas as vezes que rezamos, a terra une-se ao Céu. E assim como o incenso queimado faz subir para o alto o seu fumo, também quando elevamos ao Senhor a nossa oração confiante em Cristo, ela atravessa o céu e alcança o próprio Deus e é por Ele ouvida e atendida. Na célebre obra de são João da Cruz, Subida ao Monte Carmelo, lemos que «para ver realizados os desejos do nosso coração, não há modo melhor do que a força da nossa oração no que mais agrada a Deus. Então, Ele não nos concederá só quanto lhe pedimos, isto é, a salvação, mas também quanto vê que é conveniente e bom para nós, mesmo se não lho pedimos» (Livro iii, cap. 44, 2, Roma 1991, 335).

(Papa Bento XVI, no Regina Caeli de 20 de Maio de 2012.)

O amor é a escada que guia para Deus.

Proponho-vos alguns aspectos da doutrina de São Gregório de Nissa (… que) manifesta uma concepção muito elevada da dignidade do homem. O fim do homem, diz o santo Bispo, é tornar-se semelhante a Deus, e este fim alcança-o sobretudo através do amor, do conhecimento e da prática das virtudes, (…) “inclinando-me” para o que é maior, para a verdade e o amor. Esta expressão icástica indica uma realidade profunda: a perfeição que desejamos encontrar não é uma coisa conquistada para sempre; perfeição é este permanecer a caminho, é uma contínua disponibilidade a ir em frente, porque nunca se alcança a semelhança plena com Deus; estamos sempre a caminho (cf. Homilia in Canticum 12: PG 44, 1025d). A história de cada alma é a de um amor sempre colmado, e ao mesmo tempo aberto a novos horizontes, porque Deus dilata continuamente as possibilidades da alma, para a tornar capaz de bens sempre maiores. O próprio Deus, que depôs em nós os germes de bem, e do qual parte qualquer inciativa de santidade, “modela o bloco… Limando e limpando o nosso espírito, forma em nós o Cristo” (In Psalmos 2, 11; PG 44, 544B).

Gregório preocupa-se por esclarecer: “De facto, não é obra nossa, nem sequer o êxito de um poder humano tornar-se semelhantes à Divindade, mas é o resultado da munificência de Deus, que desde a sua primeira origem ofereceu à nossa natureza a graça da semelhança com Ele” (De virginitate 12, 2: SC 119, 408-410). Portanto, para a alma “não se trata de conhecer algo de Deus, mas de ter em si Deus” (De beatitudinibus 6: PG 44, 1269c). De resto, observa perspicazmente Gregório, “a divindade é pureza, é libertação das paixões e eliminação de qualquer mal: se todas estas coisas estão em ti, Deus está realmente em ti” (De beatitudinibus 6: PG 44, 1272C).

(…) A fim de ascender para Deus, o homem deve purificar-se: “A vida, que conduz à natureza humana para o céu, mais não é do que o afastamento dos males deste mundo… Tornar-se semelhante a Deus significa tornar-se justo, santo e bom… Portanto, se segundo Eclesiastes (5, 1), “Deus está no céu” e se, segundo o profeta (Sl 72, 28), vós “aderis a Deus”, isso obriga-vos necessariamente a estar onde está Deus, porque estais unidos a Ele. Visto que Ele vos deu o mandamento de que, quando rezais, chameis Deus Pai, diz-vos que vos torneis sem dúvida semelhantes ao vosso Pai celeste, com uma vida digna de Deus, como o Senhor nos ordena mais claramente noutra parte, dizendo: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste!” (Mt 5, 48)” (De oratione dominica 2: PG 44, 1145ac).

(…) Portanto, se o homem é considerado digno do nome de Cristo, como se deve comportar? Gregório responde assim: “[Deve] examinar sempre no seu íntimo os próprios pensamentos, as próprias palavras e ações, para ver se estão orientadas para o Senhor ou se se afastam dele” (ibid.: PG 46, 284c). E este ponto é importante para o valor que dá à palavra cristão. Cristão é alguém que tem o nome de Cristo e portanto deve parecer-se com Ele também na vida.

E então o cristão examine-se, insiste ainda Gregório: “Mas para que te serve jejuar e fazer abstinência da carne, se depois com a tua malvadez agrides o teu irmão? Que vantagem tiras, perante Deus, do facto de não comeres do teu, se depois, agindo como injusto, arrancas das mãos dos pobres o que é seu?” (ibid.: PG 46,456a).

Para progredir no caminho rumo à perfeição e acolher Deus em si, levar em si o Espírito Santo, o amor de Deus, o homem deve dirigir-se a Ele com confiança na oração: “Através da oração conseguimos estar com Deus. Mas quem está com Deus está longe do inimigo. A oração é apoio e defesa da castidade, impedimento para a ira, apaziguamento e domínio da soberba. A oração é guarda da virgindade, proteção da fidelidade no matrimônio, esperança para quantos vigiam, abundância de frutos para os agricultores, segurança para os navegantes” (De oratione dominica 1: PG 44, 1124A-B). O cristão reza inspirando-se sempre na oração do Senhor: “Se queremos portanto rezar para que desça sobre nós o Reino de Deus, peçamos-lhe isto com o poder da Palavra: que eu seja afastado da corrupção, libertado da morte, libertado das correntes do erro; nunca reine a morte sobre mim, nunca tenha poder sobre nós a tirania do mal, nunca me domine o adversário nem me faça prisioneiro através do pecado, mas desça sobre mim o teu Reino, para que se afastem de mim ou, ainda melhor, se anulem as paixões que agora me dominam e comandam” (ibid., 3: PG 44, 1156d-1157a).

Este ensinamento de São Gregório permanece válido sempre: não só falar de Deus, mas levar Deus em si. Façamo-lo com o compromisso da oração e vivendo no espírito do amor por todos os nossos irmãos.

(Papa Bento XVI, na Audiência Geral de 5 de Setembro de 2007.)

Αγνή Παρθένε.

– I –

Ó Virgem Pura e Rainha,
Imaculada, Mãe de Deus!
Ave, Esposa Inesposada!

Mãe Virgem e Rainha,
Manto Orvalhado cobre-nos!
Ave, Esposa Inesposada!

Ó Altíssima, mais que os céus,
ó Luminosa, mais que o sol!
Ave, Esposa Inesposada!

Ó deleite dos santos virginais,
maior que os celestiais!
Ave, Esposa Inesposada!

Ó luz dos céus mais brilhante,
mais pura e radiante!
Ave, Esposa Inesposada!

Ó mais Santa e angelical,
ó Santíssimo altar celestial!
Ave, Esposa Inesposada!

– II –

Maria Sempre Virgem,
Senhora da Criação!
Ave, Esposa Inesposada!

Ó Imaculada Esposa Virgem,
ó Puríssima Nossa Senhora!
Ave, Esposa Inesposada!

Maria, Esposa e Rainha,
fonte da nossa alegria!
Ave, Esposa Inesposada!

Venerável Virgem Donzela,
Santíssima Mãe e Rainha!
Ave, Esposa Inesposada!

Mais venerável que os Querubins,
mais gloriosa que os Serafins!
Ave, Esposa Inesposada!

És mais alta em plena glória,
que toda a hoste incorpórea!
Ave, Esposa Inesposada!

– III –

Ave hino dos arcanjos,
Ave música dos anjos!
Ave, Esposa Inesposada!

Ave, canto dos Querubins,
Ave canto dos Serafins!
Ave, Esposa Inesposada!

Ave, paz e alegria, alegrai-vos,
Ave, porto da salvação!
Ave, Esposa Inesposada!

Do Verbo santo, quarto nupcial;
Flor, fragrância da Incorrupção!
Ave, Esposa Inesposada!

Ave, deleite do Paraíso,
Ave, Vida Imortal!
Ave, Esposa Inesposada!

Ave, Árvore da Vida,
e Fonte da Imortalidade!
Ave, Esposa Inesposada!

– IV –

Imploro-te, ó Rainha,
eu te suplico!
Ave, Esposa Inesposada!

Peço-te ó Rainha da Criação,
imploro tua benção!
Ave, Esposa Inesposada!

Ó Virgem Pura Venerável,
ó Santíssima Senhora
Ave, Esposa Inesposada!

Com fervor eu te suplico,
ó Templo Sagrado!
Ave, Esposa Inesposada!

Ouvi-me, ajudai-me,
livra-me do inimigo!
Ave, Esposa Inesposada!

Intercede por mim
para que eu tenha a Vida Eterna!
Ave, Esposa Inesposada!

(Hino “Agni Parthene” ou Ó Virgem Pura, de São Nektário de Egina
(1846-1920), Arcebispo ortodoxo de Pentápole e fundador do Monastério
da Santíssima Trindade, em Egina (Grécia). A tradução é de Fábio Lins.)

A tradição diz que Nossa Senhora apareceu a São Nektário em Egina, e pediu-lhe que anotasse um hino muito particular, que era cantado pelos anjos. Era o Ó Virgem Pura. A melodia é da autoria de outro monge ortodoxo, do Monte Athos (também na Grécia), compositor de hinos. Numa visão, a Virgem pediu-lhe que assim compusesse esta obra.

[OUVIR]

Dominus mihi adjutor! (Sal 117,6)

Ele diz-nos quem é na realidade o homem e o que ele deve fazer para ser verdadeiramente homem. Ele indica-nos o caminho, e este caminho é a verdade. Ele mesmo é simultaneamente um e outra, sendo por isso também a vida de que todos nós andamos à procura. Ele indica ainda o caminho para além da morte; só quem tem a possibilidade de fazer isto é um verdadeiro mestre de vida. O mesmo se torna visível na imagem do pastor (…) expressão do sonho de uma vida serena e simples, de que as pessoas, na confusão da grande cidade, sentiam saudade. Agora a imagem era lida no âmbito de um novo cenário que lhe conferia um conteúdo mais profundo: « O Senhor é meu pastor, nada me falta […] Mesmo que atravesse vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo » (Sal 23[22], 1.4). O verdadeiro pastor é Aquele que conhece também o caminho que passa pelo vale da morte; Aquele que, mesmo na estrada da derradeira solidão, onde ninguém me pode acompanhar, caminha comigo servindo-me de guia ao atravessá-la: Ele mesmo percorreu esta estrada, desceu ao reino da morte, venceu-a e voltou para nos acompanhar a nós agora e nos dar a certeza de que, juntamente com Ele, acha-se uma passagem. A certeza de que existe Aquele que, mesmo na morte, me acompanha e com o seu «bastão e o seu cajado me conforta», de modo que «não devo temer nenhum mal» (cf. Sal 23[22],4): esta era a nova «esperança» que surgia na vida dos crentes.

(Papa Bento XVI, na Encíclica Spe salvi, de 30 de Novembro de 2007.)

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos.
Peço Vos perdão para os que não crêem,
não adoram, não esperam e não Vos amam.

A spiritu sæculi nequam. | Líbera nos, Domine.

Cristãos mornos são aqueles que querem construir uma igreja na própria medida, mas esta não é a Igreja de Jesus.
A primeira comunidade cristã, depois da perseguição, vive um momento de paz, se consolida, caminha e cresce ‘no temor do Senhor e com a força do Espírito Santo’. E é nesta atmosfera que respira e vive a Igreja, chamada a caminhar na presença de Deus e de modo irrepreensível.
É um estilo da Igreja. Caminhar no temor do Senhor é um pouco o sentido da adoração, da presença de Deus, não? A Igreja caminha assim e quando estamos na presença de Deus não fazemos coisas erradas e nem tomamos decisões erradas. Estamos diante de Deus. Também com a alegria e a felicidade: esta é a força do Espírito Santo, isto é o dom que o Senhor nos deu – esta força – que nos faz seguir em frente.
No Evangelho proposto pela liturgia de hoje, muitos discípulos acham muito dura a linguagem de Jesus, murmuram, se escandalizam e por fim abandonam o mestre. Estes se afastaram, foram embora, porque diziam ‘este homem é um pouco estranho, diz coisas que são muito duras e não podemos com isto….É um risco muito grande seguir este caminho. Temos bom senso, não é mesmo? Andemos um pouco atrás e não tão próximos a ele’. Estes, talvez, tivessem alguma admiração por Jesus, mas um pouco de longe: não queriam se misturar muito com este homem, porque ele diz coisas um pouco estranhas… Estes cristãos não se consolidam na Igreja, não caminham na presença de Deus, não tem a força do Espírito Santo, não fazem crescer a Igreja. São cristãos de bom senso, somente isto. Tomam distância. Cristãos, por assim dizer, ‘satélites’, que tem uma pequena Igreja, na sua própria medida. Para usar as mesmas palavras que Jesus usou no Apocalipse, ‘cristãos mornos’. Esta coisa morna que acontece na Igreja… Caminham somente na presença do próprio bom-senso, do senso comum… aquela prudência mundana: esta é exatamente uma tentação da prudência mundana.
Tantos cristãos neste momento dão testemunho, em nome de Jesus, até o martírio. Estes não são cristãos satélites, porque vão com Jesus, no caminho de Jesus. Estes sabem perfeitamente aquilo que Pedro disse ao Senhor, quando o Senhor lhe faz a pergunta: ‘Também vocês querem ir embora, serem ‘cristãos satélites’? Responde-lhe Simão Pedro: ‘Senhor, a quem iremos, só tu tens palavras de vida eterna’. Assim, um grupo grande se torna um grupo um pouco menor, mas que sabe perfeitamente que não pode ir a outro lugar, porque somente Ele, o Senhor, tem palavras de vida eterna.
Oremos pela Igreja, para que continue a crescer, a consolidar-se, a caminhar no temor de Deus e com a força do Espírito Santo. Que o Senhor nos liberte da tentação daquele ‘bom senso’, da tentação de murmurar contra Jesus, porque Ele é muito exigente e, da tentação do escândalo. E assim por diante…

(Papa Francisco, na Homilia da Santa Missa de 20 de Abril de 2013.)

Ut inimícos sanctæ Ecclésiæ humiliare dignéris. | Te rogámus, áudi nos.

A voz de Jesus passa pela nossa mente e vai ao coração. Os doutores respondem somente com a cabeça. Não sabem que a Palavra de Deus fala ao coração, como a Maria, que acolheu com humildade as palavras do Senhor.
A Palavra de Jesus vai ao coração porque é a Palavra de amor, é palavra bela e traz o amor, e nos faz amar.
Quando entra a ideologia na Igreja, quando entra a ideologia na inteligência do Evangelho, não se entende mais nada. Os ideólogos falsificam o Evangelho. Toda interpretação ideológica, de onde quer que ela venha, é uma falsificação do Evangelho. E esses ideólogos – como vimos na história da Igreja – acabam por se tornar intelectuais sem talento, moralistas sem bondade. Nem falemos de beleza, porque disso eles não entendem nada.
A estrada do amor, a estrada do Evangelho é simples: é a estrada que os Santos entenderam: Os santos é que levam a Igreja adiante! A estrada da conversão, da humildade, do amor, do coração, da beleza… Peçamos hoje ao Senhor pela Igreja: que o Senhor a liberte de qualquer interpretação ideológica e abra o coração da Igreja, da nossa Mãe Igreja, ao Evangelho simples, àquele Evangelho puro que nos fala de amor, que traz o amor e é tão bonito! E que nos torna mais belos, com a beleza da santidade. Rezemos hoje pela Igreja!

(Papa Francisco, na Homilia da Santa Missa de 19 de Abril de 2013.)