Não hei de beber Eu o cálice que o Pai Me deu? (…) Tenho sede! (Jo 18, 11.28).

Estais lembrados de que lhe ofereceram vinho com mirra no momento de o crucificarem? Não o quis beber; e por quê? Porque essa bebida lhe teria entorpecido o espírito, e Ele havia decidido experimentar a dor em toda a plenitude. Isto revela, meus irmãos, o caráter dos seus sofrimentos: Jesus tê-los-ia voluntariamente evitado, se tal tivesse sido a vontade de seu Pai: Se é possível – dissera – afasta de mim este cálice (Mt 26, 39). Mas não sendo isso possível, perguntou serenamente ao Apóstolo que o queria subtrair ao suplício: Não hei de beber o cálice que o Pai me deu? Já que devia sofrer, entregava-se ao sofrimento, e não viera para sofrer o menos possível; não se desviou da dor, antes lhe fez frente: desafiou-a, se posso dizer, a fim de que ela deixasse cabalmente a sua marca nEle, em cada instante.

E assim como os homens, superiores aos animais, estão mais sujeitos à dor por causa do espírito que neles reside e que dá substância a essa dor, assim Nosso Senhor experimentou a dor no seu corpocom uma consciência – e portanto, com uma vivacidade, uma intensidade e uma unidade de percepção – que nenhum de nós pode sequer vislumbrar, de tal modo tinha Ele a alma plenamente em seu poder, completamente livre de qualquer distração, inteiramente ligada à dor, absolutamente entregue e submetida ao sofrimento. Pode-se assim dizer que o Senhor sofreu integralmente a sua Paixão, em todos os instantes.

O seu espírito jamais se afligiu, temeu, desejou ou se alegrou, sem que Ele tivesse antes querido afligir-se, temer, desejar ou alegrar-se. Quando sofremos, é porque os agentes exteriores e as emoções incoercíveis do nosso espírito nos forçam a tal. Sofremos involuntariamente a disciplina da dor; sofremo-la mais ou menos vivamente, segundo as circunstâncias; a nossa paciência é posta à prova em menor ou maior grau, e fazemos o possível para aliviar ou extinguir a dor. Somos incapazes de prever em que medida ela se abaterá sobre nós, nem por quanto tempo a poderemos suportar; quando passou, não sabemos dizer ao certo por que sofríamos, nem o que sofríamos, nem por que não suportamos melhor o nosso fardo.

Deu-se o contrário com Nosso Senhor. A sua divina pessoa não estava sujeita, não podia estar sujeita e exposta à influência das suas afeições e sentimentos, a não ser quando o quisesse. Repito que, quando Ele queria temer, temia; irritava-se quando queria irritar-se; afligia-se quando queria afligir-se. Não estava exposto à emoção, mas expunha-se voluntariamente à influência que o devia comover. Por isso, quando resolveu sofrer as dores da sua Paixão expiatória, fez tudo o que fez segundo a expressão do Sábio: instanter, com diligência; aplicando nisso todo o seu poder.

(Bem-aventurado Cardeal John Henry Newman c.o., no Discurso sobre Os sofrimentos morais de Nosso Senhor em Sua Paixão, de 1849. Tradução: Quadrante.)

«Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!»

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